7 de nov de 2014

Conto - O Gaio Azul

Nos telhados do Bairro do Depósito, que mancha com sua presença a região atrás do majestoso Palais d’Royaume, com seus labirintos de rosas vermelhas e estátuas de marfim dos heróis que a população outrora cantava os feitos, desliza, com a destreza de um gato de rua vagabundo, Reymon Dufayel, notório ladrão conhecido amplamente por todas as pessoas desconhecidas do sudoeste do continente de Ametsa. Igualmente sujo, igualmente arisco ao animal ao qual comparam sua agilidade. Hoje, ele sorri, mas desliza por entre os telhados e canos dos depósitos do bairro anexo a Esplanada do Comércio com certa pressa, pois logo darão falta do produto de seu ofício nesta noite fria de outono. Mas hoje, não falaremos de Reymon e seu caminho torto de destino inexorável, mas sim, de algo muito mais nobre, prestes a acontecer bem longe dos telhados, porém não tão distante assim do Palais d’Royaume. 
Esqueçam por ora, o fugaz monsieur Dufayel que passa voando por cima da Rua 44 onde está um homem que pratica um ofício muito menos nobre mas muito mais honesto do que o trabalho do senhor Reymon. Observem o sujeito abaixo, de cabelos negros e barba cerrada.


Obviamente um estrangeiro no reino de Lafleur, cidade de pessoas de olhos e cabelos claros, onde os homens não portam barbas fechadas, mas finos bigodes que cultivam para exibi-los nas festas dos nobres, nos enormes palacetes espalhados pela cidade. Ele guarda as suas mercadorias, sozinho. De cima de sua carroça ele vai tirando as caixas uma por uma. Uma caixa de plumas para adornar, uma caixa de lâmpadas para iluminar, uma caixa de seda, duas caixas de seda. As mãos do homem começam a tremer. Derruba uma, ele se abaixa e a coloca no lugar. E outra caixa vai ao chão, desta vez espalhando com grande alvoroço, os anéis de metal que comprara dias antes de um ferreiro em Cafundá por um bom preço. Ao ver os anéis espalhados pelo chão, encravados entre os paralelepípedos, ele desiste, mas apenas por um momento, para recobrar as forças que o dia levou embora. Ele leva as mãos às costas e senta no chão frio se escorando em uma das caixas de madeira. Porém, antes de poder acender o cachimbo, uma sombra distante lançada pelos postes acesos detém seu olhar.
- Ora, ora – a figura de chapelão emplumado indaga – o que temos aqui rapazes. Outras sombras aparecem ao lado do enchapelado figurão que também veste uma capa negra, e agora, debaixo da luz dos postes da Rua 44, mostra sua cara. E ele tem a cara de um homem que só conhece o dinheiro, mas que só come comida que dá azia.
- O que deseja señor – disse o mercador. Estou apenas guardando o que são minhas mercadorias. Sei que é tarde – o mercador vira as palmas das mãos para cima - mas acabo de chegar ao reino e passei o dia conseguindo os papéis necessários para ter uma pequena barraca na Esplanada. Quando terminei com toda a burocracia – e te digo señor, não foi pouca tinta destinada a assinar meu nome hoje – já era tarde e para compensar a viagem e não perder o dia, trabalhei até tarde. Portanto, se é da guarda da cidade e estava achando estranho alguém tão tarde mexendo com caixas, te digo: nada tens a temer. Sou apenas um mascate vindo do centro-leste.
- Não sou da guarda, não. Não precisa se explicar para mim – o homem de chapéu púrpura respondeu enquanto uns 9 homens armados de mosquetes saíam das sombras e se colocaram em posição de guarda atrás dele.
- Ladrones! – exclamou o mercador – o que querem? As mercadorias ou o dinheiro que fiz honestamente hoje? Nunca achei que precisaria de seguranças dentro das muralhas de um reino como Lafleur!
- E não precisa – retrucou o homem brincando com uma adaga que havia sacado da cintura. Não somos da guarda da cidade, mas tampouco somos ladrões.
- Não são ladrões?
- Não.
- São o que então, andando assim pela rua às escuras?
- Somos homens de negócio, como vossa mercê – a adaga foi usada como seta para apontar para o estrangeiro mascate.
- Seja lá o que estão vendendo, não estou interessado. E por favor, não assustem as pessoas assim à noite – respondeu aliviado.
- Acredito que o senhor tenha, sim, interesse em nosso produto, pois ele diz respeito à segurança de seu pequeno negócio e até da segurança de vossa pessoa, e ainda que seja estrangeiro e seu negócio temporário – o homem empunhou a adaga e sorriu um sorriso de piada simples, desagradável a apenas um homem: o mercador – todos devem aos Rosas Negras. Então, se não quer que algo aconteça com sua mercadoria, é favor passar 12 barões para cá. É a taxa contra incêndio, ela vai para nossa brigada aqui no Bairro do Depósito, sabe. É um lugar propenso ao fogo, com toda essa mercadoria e esses galpões de madeira...
- Rá – riu o mercador – leve suas ameaças para outro lugar, nanico. Já ouvi piores de crianças nos Baixios dos Goblins. Eu tenho mais o qu-
O homem de chapéu estava agora grudado no peito do mercador. Escorria sangue de seu ombro e o enchapelado sorria. Com dificuldade, largou o sorriso que estampava no rosto, removeu a adaga de dentro do mercador e enquanto a limpava, disse para o homem que caia aos seus pés, levando a mão esquerda ao ombro perfurado:
- Pois agora o risco de incêndio aumentou. São 36 barões bem aqui na minha mão, ou então você pode vir a pegar fogo bem aqui no meio da rua. O que vai ser “señor”?
clac, clac, clac, clac, clac – ouviam todos na Rua 44 aquele barulho espaçado de madeira contra pedra – clac, clac, clac, clac...
O homem de chapéu e adaga afastou-se do mercador. Olhou para a fonte do barulho – uma esquina escura à sua frente – e sussurrou para si:
- Putain de ivre... – levantou a cabeça em direção ao beco e preparou para descer o verbo naquele bêbado insolente - escuta aqui seu-
Sua testa franziu tanto que o desfigurou. Não era um bêbado que virava a esquina. Mas uma mulher. Uma mulher de queixo forte e rosto anguloso. A face mascarada era marfim talhado a faca. Os cabelos negros cortados curtos, a franja longa que descia pelo lado direito da testa e passava por detrás da orelha esquerda cuidadosamente presa de forma que não caísse nos olhos. Um chapéu branco encimado por uma pluma negra na cabeça e uma casaca justa, azul e branca. Por cima dela, um pesado manto azulturquesa. Era o Gaio Azul, a misteriosa espadachim mascarada de Lafleur.
- Miserável – irrompeu o criminoso de chapéu púrpura – vai se meter nos negócios dos Rosas Negras? Perdeu o juízo, garota? Quer morrer em uma vala fria? Vá embora, menina! Continue apenas importunando aqueles maricas dos Rosas Brancas! Vá, faça isso e talvez nós deixemos você viver! – rosnou.
- Eu me recuso – a voz era de sentença.
Mas antes que pudesse fazer ou dizer mais alguma coisa, a ordem de “FOGO” irrompeu da garganta pigarrenta do homem de chapéu púrpura. BUM BUM BUM BUM BUM PARABUBUBUM rufaram os mosquetes e o chapéu de pluma negra foi ao chão.
Mas o Rosa Negra não sorriu.
- Pra onde ela foi?
Um, dois, três, quatre, cinq, six, sept, huit, neuf. Nove. Nove cortes e as cintas, junto com a pólvora e a munição dos mosquetes dos jagunços que acompanhavam o criminoso na Rua 44 foram ao chão junto com suas calças, deixando todos, menos um, com as calçolas à mostra.
- MISERÁVEL! – o homenzinho com a adaga voou pra cima da espadachim.
Plim – ela aparou o golpe com sua longa lâmina com facilidade, fazendo com que o homenzinho perdesse o equilíbrio e saísse tropeçando pela rua de paralelepípedo. Antes que ele pudesse recobrar a postura, ou mesmo se virar para entender o que estava acontecendo, o seu algoz enterrou fundo o salto do sapato em seu traseiro avantajado. Ele caiu ralando o rosto. Ele teve que segurar o chapéu para não o perder.
A espadachim estava parada no meio dos homens, que a esta altura estavam tentando manter as calças nas cinturas, impassível, sabre em riste.
- ACABEM COM ELA! – gritou o homem arremessando seu chapéu roxo ao chão, revelando a careca no topo de sua cabeça.
Os capangas hesitaram por um momento, mas depois pensaram “são 9 contra uma”. Sacaram seus sabres e perderam a batalha vergonhosamente. O que se sucedeu após a carga dos cupinchas de calças nas mãos dos Rosas Negras não podia ser descrito como um combate. Era mais um titiritero brincando com suas marionetes. Ela os fez girar, rolar, se beijarem, ralar os narizes no chão duro. Em poucos instantes, todos estavam no chão – alguns realmente inconscientes, outros apenas tão humilhados que jaziam ali deitados, reconsiderando suas escolhas na vida que os trouxeram até este momento tão vexatório.
Quando o Gaio Azul se virou para o careca, ele apontava para a espadachim um dos mosquetes. Este estava carregado e pronto para disparar – a uma distância de menos de 3 metros.
- HAHAHAHAHAHAHA! – ele ria – vamos ver quão rápida você realmente é, desgraçada!
A mão da espadachim, muito antes do homem pensar em puxar o gatilho, já havia alcançado a pequena adaga presa á cintura e atrás de suas costas. E enquanto o mecanismo de disparo começava a entrar em movimento dentro do mosquete, ela arremessou a lâmina que fincou-se no cano da arma, fazendo com que a pólvora dentro da câmara explodisse na cara do malfeitor, queimando lhe a mão e o rosto. Ele urrou de dor.
- GAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAhaha... minha mão – ele gritou.
As lágrimas escorriam pelo rosto e ele segurava a mão direita como se ela fosse cair. Olhou para cima e viu o rosto severo da espadachim mascarada. Seus lábios se moviam como se estivesse falando alguma coisa. O homenzinho não conseguia ouvir nada.
- NÃO CONSIGO TE OUVIR, VADIA, VOCÊ ACABOU COM OS MEUS OUVIDOS! – e levou a mão boa às orelhas. Um zumbido corria dentro de sua cabeça.
Ela falou mais uma vez, marcando bem o movimento dos lábios. “Pague” ela dizia.
- SABIA! HAHAHAHA! SABIA! VOCÊ NÃO PASSA DE UMA MERCENÁRIAZINHA! NÃO É? LADRONA! NÃO É DIFERENTE DE NÓS! VOCÊ QUER DINHEIRO? ENTÃO TOMA! – o homem tirava notas e mais notas de dentro dos bolsos da casaca e quando terminou de tirar as notas, virou uma bolsa cheia de moedas nos paralelepípedos – AI ESTÁ! LEVA TUDO! MAS ME DEIXE EM PAZ!
Mas ela não as pegou. Moveu os lábios mais uma vez.
- O QUE? NÃO ESTOU TE OUVINDO!
Mais uma vez, fez o movimento da boca bem devagarinho: “coma”, ela dizia.
- COMER? COMER O QUE? Oh não...
A espada apontou para o dinheiro que estava no chão.
- Ah não! Na-na-na-na-na-não! De jeito nenhum que – ele foi interrompido pela ponta da lâmina de aço que fez contato com o seu nariz – TUDO BEM! EU COMO! SE EU COMER VOCÊ ME DEIXA IR EMBORA?
O Gaio Azul balançou a cabeça positivamente. Com muito asco, ele pegou um monte de notas imundas e amassadas e colocou-as na boca. Péssima ideia. O gosto de bactéria o fez cuspi-las imediatamente, junto com parte de seu jantar: lagosta com manteiga de garrafa. Olhou com os olhos marejados para cima, mas apenas encontrou os olhos de uma vigilante implacável. Ela ficou bem ali, imóvel, enquanto ele comia cada moeda conseguida através da intimidação de gente de bem, cada nota destinada ao pagamento de propina para a guarda da cidade naquela noite.
E então, virou-se para ir embora, deixando o homenzinho dos Rosas Negras, uma das duas facções criminosas secretas que operam no reino de Lafleur, para trás. Mas seria melhor dizer que elas operam O reino de Lafleur: não há nenhum negócio nas ruas, nenhuma decisão tomada no parlamento, nenhuma trama de assassinato ou decreto da Rainha que não tivesse o dedo podre ou dos Rosas Negras, ou de seus rivais, os Rosas Brancas. Esta noite, ela havia deixado um agente dos Rosas negras agarrado a um poste, colocando para fora aquilo que lhe era mais querido e mais desejado. Caminhou até o seu chapéu, que havia caído no início do combate – por sorte não havia sido perfurado pelos projeteis disparados pelos mosquetes – e o colocou de volta na cabeça. O homem dos Rosas Negras queria insulta-la, queria maldize-la a plenos pulmões, mas estava ocupado demais colocando os bofes para fora. Ele apenas olhou enquanto o Gaio Azul sumia na escuridão.
O nosso amigo mercador, a esta altura, já havia fugido do local. Estava indo em direção a uma taverna, em busca de ajuda. Ele pôde manter seu lucro daquele dia, mas não ficaria mais naquela cidade. Iria embora no dia seguinte com a marca da facada em seu ombro como souvenir do reino das flores. O reino das flores, onde os ladrões voam nos céus e os anjos caminham na terra.

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