16 de abr de 2016

O Escaravelho da Vingança... Ou seria A Vingança do Diabo?


Lembro me que "O Escaravelho do Diabo" foi o primeiro livro que li na minha vida, quando eu estava na quinta série. Eu apenas lia revistinhas da Turma da Mônica e tirinhas desenhadas do jornal de domingo, e ser apresentado ao mundo da literatura foi uma experiência que mudara minha vida. E qual não é minha surpresa quando descubro que iria sair um filme baseado nesse livro que tanto gostei quando criança? No mínimo fiquei super empolgado, porque lembrava que a história era muito legal e até hoje eu lembrava do final, que era no mínimo inusitado. O tempo foi passando e a estreia se aproximando, e qual não é minha surpresa ao ver o trailer do filme: Haviam mudado drasticamente algumas coisas em relação à alguns personagens chaves da trama! Eu, particularmente sou o tipo de pessoa que se apega às obras originais, e raramente curto quando fazem alguma alteração em uma adaptação de algo que eu gosto, embora tenha noção de que tem pessoas que não ligam e outras que gostam, ok. Então, essas mudanças me fizeram ficar com o pé atrás para com o filme: será que vou gostar tanto quanto gostei do livro? Do livro... isso me fez perceber que eu me lembrava apenas dos principais acontecimentos, e que muita coisa eu já esquecera, e logo eu tratei de pegar o livro para reler antes de assistir o filme, para perceber o que haviam mudado, e em uma semana eu já havia relido esse clássico da Coleção Vaga-lume, escrito por Lúcia Machado de Almeida, e então eu fui ver o filme... e eis abaixo minha opinião:

ENREDO

No começo, eu estranhei a mudança que fizeram com relação ao personagem principal, mas logo eu me acostumei, e falarei mais pra frente sobre essas mudanças do livro pro filme. Apesar das muitas mudanças que o a história sofreu, continua sendo uma ótima história de aventura e suspense, na qual você se diverte com os acontecimentos e reviravoltas da trama. O enredo trata de um garoto que teve seu irmão morto misteriosamente após receber um estranho escaravelho preso á uma rolha com uma agulha, e conforme outras mortes ocorrem, descobrem que as vitimas recebem o mesmo presente bizarro, e também descobrem que as vítimas eram sempre ruivos naturais. Então, o garoto, Alberto, junto com o Delegado Pimentel, correm contra o tempo, tentando achar o assassino de Hugo (irmão de Alberto) e tentar impedir que mais homicídios aconteçam. No livro, por se tratar de uma história voltada para o público infanto-juvenil, possui uma leitura dinâmica e simples de entender, e não possui muitos detalhes na descrição do lugar onde os personagens estão, ou mesmo dos personagens, assim como há cortes que deixam para trás a trivialidade: o livro te mostra somente o que é importante para o desenrolar da trama, ele vai somente direto ao ponto, te mostrando o que você precisa saber do ambiente ou de determinado personagem, e o filme segue mais ou menos pelo mesmo caminho, sendo bastante direto, sem ficar criando cenas para "enriquecer" o filme. Cada cena é necessária para o entendimento da motivação da ação de um personagem, ou do desenrolar dos eventos de uma cena futura. O filme está até mais voltado para o publico infanto-juvenil do que o livro, pois adicionaram doses de humor que não existe no livro, assim como transformaram o romance conturbado e sufocante do livro, em uma experiência de primeiro-amor que ficaria fácil qualquer jovem da idade do protagonista se identificar com o tal. O Filme é beeeem mais simples de entender e mais direto do que o livro, o que faz com que ele agrade a qualquer faixa etária acima dos 10 anos, talvez... até o final do filme está incrivelmente mais simples que a versão original. Após ver o filme, eu digo que houveram muitas mudanças, umas eu gostei, outras não. Parece que pegaram a ideia do filme, o lance do assassino de ruivos que usa escaravelhos como seus mensageiros da morte, pegaram alguns nomes de personagens, e recriaram toda a história, usando algumas referências da obra original. Apesar disso, o filme é bom, e vale a pena conferir, principalmente pelo Delegado Pimentel, interpretado pelo Marcos Caruso, que no filme se tornou o alivio cômico graças á uma mudança que o personagem sofreu na adaptação, mas que consegue realmente ser muito engraçado em certas partes, principalmente pra quem curte humor-negro. Ainda prefiro a história e a trama do livro, mas o filme também tem seu charme.




TEAM LIVRO VS TEAM FILME

******************************ALERTA DE SPOILERS****************************
A seguir eu falarei das mudanças do filme com relação ao livro, e todo esse texto em vermelho significa que falarei contando alguns spoilers sobre a trama de ambos, então considere-se avisado!

Pois bem, a primeira mudança, e drástica, diga-se de passagem, é com relação ao protagonista, Alberto. No livro, ele é um jovem adulto, que está cursando a faculdade de medicina, faltando apenas dois anos para se formar, e ele é o irmão mais velho de Hugo, já no filme, Alberto é um garoto de uns 13 anos, que admira seu irmão Hugo, querendo ser descolado como ele quando crescer. No livro, o fato de Alberto estar quase terminando a faculdade de medicina é um motivo plausível para ele estar sempre ao lado do Delegado Pimentel ajudando a solucionar os casos em busca do assassino de seu irmão, já no filme, Alberto está sempre "no lugar certo, na hora certa", e acaba sempre com um pretexto para se enfiar nas investigações. Particularmente não gostei da mudança de idade do protagonista, pois perdeu muito da característica dele, mas admito que isso tornou o filme mais atrativo para o público alvo. 

Outra mudança um tanto esquisita, para quem leu o livro, é a questão do interesse amoroso de Alberto. No livro, Alberto chega a sair algumas vezes com uma ruiva chamada Rachel Saturnino, e Alberto logo desiste da moça, devido à sua personalidade, pois no livro ela é uma pessoa fútil, que só se importa com ela mesma, sendo mesquinha e chata, e após dar um chute na bunda de Rachel, Alberto conhece Verônica, uma mulher baixinha, com ar frágil, mas com um olhar fulminante que fizera Alberto se encantar por ela quase que instantaneamente, mas Rachel se torna a peça que ameaça o romance dos dois com seu ciume. No filme, Verônica e Rachel são... Irmãs!? Isso mesmo. Verônica deixou de ser uma pessoa com personalidade odiável para se tornar o par romântico de Alberto, inclusive tendo sua idade regredida para se adequar á juventude de Alberto, enquanto que Verônica, mesmo tendo um namorado, tinha certo interesse afetivo com Hugo, irmão de Alberto.. Cara, que loucura!

No livro o caso do assassino de ruivos é tratado com máximo sigilo possível, pois eles não queriam que o assassino soubesse que sabiam de sua prática, buscando descobrir suas motivações e tentando achar pistas que os levasse ao assassino dentre os suspeitos (suspeitos esses que não existem no livro, mas já falarei sobre isso), enquanto que no filme, rapidamente a ligação entre os assassinatos é descoberta e o caso do assassino de ruivos se torna conhecido por todos, o que no livro só vem a ocorrer quase no final. Outra curiosidade é que em Vista alegra, onde se passa a trama, existem tão poucos ruivos naturais, que Alberto consegue listar todos e ir de casa em casa de cada um avisar sobre o assassino, para que eles se mudem ou pintem o cabelo, para que não sejam alvos do assassino, enquanto que em Vale das Flores, onde se passa o filme, existem centenas, e o assassino simplesmente decide matar só alguns, enquanto que no livro ele "mata todos" os que ele descobre.

Delegado Pimentel... o que dizer dele... no livro, ele é um delegado centrado, muito sério e competente, fazendo de tudo da maneira mais lógica possível e tentando de tudo para conseguir deter o assassino, e de certa forma meio cético com relação ao aviso de Alberto sobre o fato dos primeiros assassinatos não serem uma coincidência, até que lhe é provado o contrário.. já no filme, o Delegado Pimentel, co-protagonista, sofre de um mal cujo nome eu não lembro, mas que ele diz ser "irmão do Alzheimer". Mesmo sendo um problema real e triste, é muito engraçado ver as situações que ele cria no filme, mesmo depois de descobrirmos o problema dele.

A Casa da Holandesa. No livro, um dos principais locais que é visitado, é uma pousada, onde a dona é uma holandesa, Cora O'Shea. Na pensão, moram por volta de quatro hóspedes, incluindo Verônica, e o fato de uma das vítimas ter morrido envenenado na pensão, leva Alberto e Pimentel desconfiarem que o assassino é um dos hóspedes, incluindo Verônica, pois somente alguém próximo poderia saber da doença da vitima e matá-lo envenenado adulterando seus remédios, e sempre que outra morte ocorre, cada um dos hóspedes se torna cada vez mais suspeitos, não tendo álibis, estando próximos da cena do crime etc. Já no filme, a pensão da holandesa não existe, nem seus hóspedes, exceto por Verônica, e assim uma das partes mais interessantes do livro, que ficava no mistério de qual dos hóspedes era o assassino, ficou de fora, e o assassino acaba sendo um personagem que não aparecera até então, sendo alguém que só é revelado no final, já pra descobrir quem é o assassino, e parte da "adrenalina policial" se perde, e o filme se torna bem linear, apenas seguindo o rastro de sangue do assassino até o final, correndo ás cegas sem ideia de quem pudesse ser o assassino, e quando descobrem já é "tarde demais".

O livre, escrito em 1956, possui as limitações de sua época, enquanto que o filme foi adaptado para ser ambientado nos tempos atuais, então veremos coisas como CSI, celulares touch, tablets, computador, etc. No livro, Alberto, ao descobrir um escaravelho, tinha que gastar dias viajando até outra cidade até um Entomologista para descobrir sobre o significado dos insetos, enquanto que no filme, tudo é resolvido através de uma rápida busca em um site de busca genérico desses que vemos em filmes e séries para que não precisem pagar nada pra Google. Essa foi uma boa mudança, pois ambientar uma história que foi escrita em seu tempo atual, para a nossa atualidade, é uma ideia legal na minha opinião, e o filme acabou sendo mais direto e sem passagens de tempo longas como no livro, que tem passagens de tempo de dias, semanas, meses e em determinada parte, de anos.

O SANTO E O PECADOR

No livro, Padre Afonso é um personagem que Alberto vai avisar para tomar cuidado, pois ele, com seu rosto jovial, ostentava uma vasta cabeleira ruiva, que parecia um leão, e se mostra um personagem totalmente convicto de sua fé, mostrando a Alberto que Deus estava no controle de tudo, e sempre tendo uma explicação filosófica e espiritual para os desígnios de Deus, tanto que no livro Alberto toma uma grande admiração pelo personagem, pela personalidade forte e confiante que o padre demonstra. Já no filme, Padre Afonso, não tão jovial, interpretado por Jonas Bloch, aparece quase que sem propósito, e Alberto faz perguntas duvidosas sobre as motivações de Deus que deixam o padre sem argumentos. No livro, de fato é um dos hóspedes da holandesa, e mesmo depois de todas os ruivos morrerem, não se descobre quem é o assassino, apenas anos depois, quando Alberto conversara com um amigo que fizera na França, e através dele nós ficamos sabendo do passado do assassino, e conhecemos sua motivação e seu ódio contra os ruivos, e entendemos que o assassino é alguém com um certo distúrbio de personalidade, que é acometido por acessos de fúria assassina porque um ruivo arruinou sua carreira e assim sua vida no passado, fazendo o personagem se tornar de certa forma um louco. Tal fato faz com que Alberto tenha até pena do assassino, pois ele era alguém doente. Já no filme, descobrimos que o assassino era alguém que jamais fora mencionado até então, e que pensaram que ele havia morrido em um incêndio em um sanatório onde estava internado, mas de algum jeito ele acabara escapando. O engraçado, é que o assassino tem uma grande cicatriz de queimadura nas costas e na cabeça, e nas costas tem o formato de um grande escaravelho, muito conveniente, ele devia ter alguma armação em forma de escaravelho, que se aqueceu devido ao incêndio e que de alguma forma deve ter caído em suas costas, é a única explicação além do plot para aquela cicatriz. Mas, no final derradeiro, descobrimos que o assassino é um mestre dos disfarces, usando desse artificio para estar sempre presente sem ser notado, e descobrimos que um o Padre Afonso, quando jovem, era um puta traquinas, e certa vez, faz o futuro assassino cair em uma cova aberta, onde, desesperado, o futuro assassino é coberto por escaravelhos, o que o faz com que ele acabe obcecado pelos animais, dizendo que eles o acolherem nas trevas. Então, no filme, a motivação do assassino era apenas a vingança pura e simples, deixando o Padre por último, longe de toda a complexidade psicológica do assassino do livro, que era, de certa forma acometido por surtos assassinos de uma personalidade que ele não mais tinha.

O livro tem a história muito mais profunda e envolvente do que o filme, mas nem por isso o filme é ruim. Se você nunca leu o livro, vale a pena pois é um bom filme, divertido e com boas cenas de suspense. Se você leu, embora não seja tão bom quanto o livro, vale pelas referências e para comparar as mudanças e ver quais te agradaram e as que você achou desnecessárias.
Eu recomendo o filme, que tem apenas uma hora e meia, mas recomendo muito mais o livro, que tem menos de 130 páginas, que você vai ler rapidamente pela escrita dinâmica e direta, e pelos capítulos não muito longos. Leia e veja o filme, e me diga o que achou!

Vejo vocês na próxima Missão!

Nenhum comentário:

Postar um comentário