1 de abr de 2016

Resenha com spoilers: Batman v Superman - Dawn of Justice


Minha nossa... por onde começar?

Então, faz uma semana que o filme Batman v Superman: Dawn of Justice estreou mundialmente e acredito que escrever esta resenha agora me trás certa vantagem, pois não vou precisar falar de novo o que está sendo dito por aí: que o filme é muito ruim. Se outro lhe disser o contrário, não acredite nele: o pobre sujeito provavelmente queria tanto um filme do Batman lutando contra o Superman nos cinemas que se auto-sugestionou para gostar do filme. A mente humana é misteriosa e cheia de poder, acreditem.

Não irei me perder em "mimimis" e nem em "memememes" por aqui também. Tentarei apontar, na melhor de minhas capacidades, as muitas falhas palpáveis deste filme dirigido pelo visionário diretor Zack Snyder. Não que o filme não possua pequenos momentos chatos e hábitos irritantes que mereçam levar umas cacetadas; é que alguns diriam que apontá-los seria implicância e quem sou eu para implicar com um filme. Tendo dito isto, vamos lá:

As cenas que não levam a lugar nenhum, e não se conectam umas com as outras

As cenas iniciais deste filme poderiam ser mostradas nos cinemas em qualquer ordem que não fariam diferença alguma. Não há uma linha do tempo estabelecida a não ser que tudo ocorre 18 meses depois dos eventos de Homem de Aço. A maioria das cenas é feita em close-up e quase não há tomadas para estabelecer o local onde ocorre a ação. A história se passa parte em Metrópolis e parte em Gotham, mas é difícil saber onde estão os heróis em dado momento, já que além de faltar tomadas abertas, ambas cidades são iguais: escuras e chuvosas. Temos Lois Lane que perambula pelo filme procurando por quem forneceu munição especial para guerrilheiros na África, o Batman que tenta descobrir quem é o Português Branco, Superman que salva algumas pessoas e Lex que planeja seu intento maligno: os personagens se cruzam, mas suas histórias não (exceto no final) e elas, na sua maioria, de qualquer forma não levam a lugar algum. Lois Lane descobre que foi a Lexcorp que forneceu a tal munição, mas o descobrimento desta informação em nada afeta a história do filme. Superman é mostrado, de forma sinistra e depressiva, mas ainda assim, salvando pessoas - no entanto, quase ninguém gosta dele. Batman corre com seu bat-móvel e mata pessoas para tentar roubar a kryptonita de Lex, e falha após ser impedido por Superman, apenas para depois pegar a kryptonita de qualquer forma, longe das câmeras do diretor, de alguma forma impressionante, eu aposto, mas que nós nunca veremos. Lex Luthor pede permissão ao senado para trazer a tal kryptonita para os EUA. Eles dizem não, mas ele traz mesmo assim (por que pedir então se ele poderia trazer tão facilmente em um navio?). Este tipo de cena se repete com frequência no filme e é de deixar qualquer um maluco. Poderíamos fazer quatro filmes separados e não haveria problema algum aqui, exceto pela parte final, onde Lois Lane, Superman, Batman e Mulher Maravilha enfrentam o Apocalipse.


O que o filme mostra e o que o filme quer passar ao espectador não andam em conjunto

Como disse no parágrafo acima, parece que as pessoas estão dividas quanto ao Superman: alguns gostam dele e o proclamam herói, outros o rotulam como uma ameaça iminente. Nada disso impede a prefeitura de Metrópolis de construir uma estátua gigante do controverso herói no centro da cidade. As pessoas estão divididas a respeito de uma pessoa e o prefeito constrói uma estátua enorme do sujeito com o orçamento da cidade? Já imaginou hoje, em 2016, o prefeito do Rio de Janeiro ordenando a construção de uma estátua da Dilma no meio da Cinelândia? E Metrópolis, de todas cidades da América fictícia da DC, depois do filme anterior (que teve sua cena final reiterada neste filme), seria a última cidade a ter uma estátua do Superman. O filme mostra como foi terrível e agonizante a destruição de Metrópolis e como Superman não fez absolutamente nada para melhorar sua imagem com o público. Em sua primeira (e única) cena sem seu uniforme, Clark conversa Lois no banheiro de casa, e ela tanta explicar a ele o que as pessoas estão pensando do Superman no momento, mas Clark corta seu discurso de imediato: "eu não ligo para o que eles pensam, Lois. Eu não matei aquelas pessoas" - ele diz irritado (Superman tem três marchas neste filme: chateado, irritado e modo assassino de olhos vermelhos). Apesar destas cenas, o filme sempre tenta nos passar a ideia de que, no início pelo menos Metrópolis amava o Superman e depois o mundo inteiro passa a admirá-lo.


O Superman deste filme é frio e distante, quase um deus entediado com sua própria divindade, maso filme empurra para o espectador que o herói ama a terra e as pessoas que nela habitam.

Vemos também o quão paspalho este Lex Luthor é. O filme possui uma cena onde o vilão simplesmente não consegue discursar perante uma platéia de poucos, em um evento praticamente nada importante em uma biblioteca municipal. Não obstante, devemos acreditar que ele é um gênio, que comanda uma corporação multi-bilionária e é capaz de enganar o Batman. Mais uma vez: deliberadamente, colocaram uma cena no filme que mostra que o vilão manipulador, CEO de uma multinacional, não sabe falar em público. Por quê?

Batman que mata dezenas na tela do cinema, mas diz que é Superman que está fora de controle e precisa ser controlado. Como assim? Você acabou de causar milhares de dólares de prejuízo nas vias públicas de Gotham (ou seria Metrópolis?) e matou pessoas que você assume que são bandidos (já parou pra pensar se elas não estavam simplesmente protegendo a carga de um navio que elas nem sabiam que era ilegal?) e é o Superman que está fora de controle? Novamente, o que nos é cobrado não nos é dado pelo filme. Batman - e o Superman também por outros motivos - são dois hipócritas.

A total falta de motivação dos personagens

Nunca nos é mostrado (lembrem-se: cinema é uma mídia visual) o que os personagens desejam fazer neste filme, com a exceção de Bruce Wayne que deseja matar o Superman. Mais uma vez: eu queria que o filme mostrasse (e não contasse) quais são as intenções das pessoas na tela.


Superman parece não gostar de fazer o que faz: a expressão facial mostrada nas cenas onde ele salva as pessoas, acompanhada por uma trilha deprimente, nos indicam que ele não quer estar ali. Então o que ele quer? Ele passa seu tempo ou tentando convencer seu editor no jornal que Batman é uma ameaça fascista em Gotham, ou acossando o próprio Batman e dando-lhe ultimatos. Salvar pessoas parece secundário para este herói: são três cenas de resgate, todas bem agourentas e sem cor em todo o filme. Além disso, se ele tivesse chegado um pouco mais cedo para salvar sua namorada, Jimmy Olsen não teria sido executado com um tiro na testa no meio de um deserto africano. Triste.

O Batman quer matar o herói de Metrópolis, porque acredita que ele é potencialmente perigoso. Mas como disse, o próprio é um descontrolado, causando dor, morte e prejuízos por onde passa.

Lex Luthor arquiteta um plano completamente sem sentido para colocar os dois heróis para lutar, com o intuito de que Batman acabe com a vida do Superman no fim das contas. Por que? Lex nos conta, aos 45 do segundo tempo do filme, que ele não gosta de Deus. E Superman aparentemente é a coisa mais próxima disso que ele pode tentar matar. Então temos que engolir essa.

O filme não possui ritmo


Não temos um contraponto para a escuridão e aborrecimento que segue por todo o filme. Existe uma cena bem colorida no início da película quando pescadores no oceano índico recuperam a kryptonita no mar, uma cena onde Clark entra na banheira com Lois e duas cenas descontraídas na batalha final e é só. O resto é filtro azul, chuva, destruição e morte.


Veja bem, por favor: o filme ser escuro, sisudo e se levar a sério NÃO É NECESSARIAMENTE UM PROBLEMA. O problema é que quando tudo é pesado e escuro, tudo se mistura numa grande massa pesada e amorfa de trevas. Sentimos melhor os momentos terríveis em uma história quando há cenas descontraídas para dar um contraponto a tudo isso de trevoso que irá acontecer/vem acontecendo na história. Mas neste filme isso não acontece. Um dos momentos que eu mais gostei foi um dos mais bobocas: Martha Kent faz uma pequena piada com o Batman logo após o herói salvá-la (de ser queimada viva, diga-se de passagem). Eu adorei porque me lembrou, depois de quase duas horas de tristeza, que humor parece existir no mundo onde se passa o filme.

A falta de contraponto deixa o filme com uma atmosfera completamente opressora, totalmente fora de compasso com a mensagem que o filme quis passar no final: "há esperança". Só que essa "esperança" nunca nos é mostrada, apenas professada por diálogos terríveis entre os personagens, às pressas, perto do fim da história.

Saí do cinema com a impressão de que gritaram comigo por duas horas e meia e eu não gostei.

Ninguém consegue conversar no filme

Parece que este filme tem medo de diálogo. Os personagens pouco falam, e quando algum diálogo potencialmente interessante está prestes a acontecer - como Superman finalmente indo ao congresso declarar suas intenções à América e ao Mundo, potencialmente acalmando os ânimos em relação a ele - alguma coisa impede o personagem de abrir a boca - no caso citado, uma explosão arquitetada por Luthor, em uma tentativa tosca de culpar Superman pelo que aconteceu no local, destrói o prédio por completo. É simplesmente terrível: uma cena tão séria que retrata o bombardeamento de representantes de um governo não deve conter um jarro de urina. Superman simplesmente fica chateado com o ocorrido.

Isso acontece durante todo o filme: quase todo diálogo é interrompido prematuramente para dar lugar a uma cena de ação.

E quem se salva no filme?

Sim, quem, pois o filme pode ser jogado diretamente no lixo: é inadmissível um filme de alta produção do Batman e do Superman receber críticas piores que o filme do Homem-Formiga e do DEADPOOL. Independente de seu sucesso financeiro. Este filme mereceu cada bordoada aplicada por fãs e por críticos.


E no fim das contas, crítica e público estão de acordo com uma coisa: nada disso foi culpa dos atores.

Henry Cavill é completamente bloqueado pela direção que recebe e pelo roteiro: não existe uma cena onde ele brilha como Clark Kent ou Superman e quando está em cena, ou está sisudo ou está assustador (exceto por uma cena). Tive a impressão que ele quase não apareceu no filme, apesar de seu nome estar no título.

Ben Afleck é unanimidade: seu Batman experiente e cansado de tudo e todos é diferente do que vimos nos últimos tempos. Suas cenas de luta são as melhores do filme, melhor até do que a presepada que foi a batalha contra o Apocalipse no final. As cenas onde ele mata por efeito colateral são críveis com Afleck no comando, pois este mostra um Batman velho de guerra que já não acredita na redenção dos outros. O roteirista é que deveria ter sugerido um outro motivo para a briga contra o Superman e deixado aquela hipocrisia de lado.

Lex Luthor é uma abominação narrativa: anos se passarão até entendermos por completo o que se sucedeu ali, pois o ator Jesse Eisenberg não trabalha tão mal assim.

A Mulher Maravilha, que muitos elogiaram, para mim ainda é uma interrogação: as poucas falas que teve no filme (que eu achei bem mal executadas pela atriz Gal Gadot) não são suficientes para uma crítica objetiva. E sua participação na batalha final contra Apocalipse simplesmente não é explicada ou construída durante o filme: ela simplesmente pega suas coisas e vai pro final do filme lutar contra o monstro de CG. Enfim, vamos esperar pela sua história solo para ver, se ela acontecer.

A Lois Lane de Amy Adams é sólida, apesar de ter que fazer coisas muito estúpidas por conta de exigência do roteiro (como jogar a lança de kryptonita que mataria o Apocalipse dentro de uma escadaria completamente alagada. Por quê?). A cena onde ela mostra total confiança em Clark/Superman durante uma situação onde é refém é muito boa.

Os outros personagens do filme também não comprometem. Destaque para o retorno de Kevin Costner como Papai Kent, que veio novamente dar "conselhos paternos" para seu filho, na forma do que eu acredito ser uma espécie de alucinação de Clark no topo de uma montanha.

Há um aspecto técnico positivo neste filme: a trilha de Hans Zimmer. Ela se encaixa bem ao filme e é uma pena que o mesmo traumatizou tanto o compositor que ele declarou recentemente que nunca mais fará trilhas para filmes de herói novamente.

Conclusão

Dou nota 4 de 10 para Batman v Superman. O filme não é um centésimo do que foi prometido pelo diretor Zack Snyder e sua equipe e nem de longe redefine o gênero de filmes de super herói, pois tão pouco é um filme regular. Este é um péssimo filme, sem nenhum valor como entretenimento e, repito, é inadmissível que algo assim coexista com títulos como X-Men: Dias de um futuro esquecido, Deadpool e Homem-Formiga. Apenas o fato d'eu ter mencionado Homem-Formiga duas vezes neste texto é suficiente para mostrar o quão decepcionante tudo isso é: estamos comparando dois ícones mundiais da cultura pop com um herói praticamente desconhecido há uns tempos atrás, e o último possui o melhor filme.  Se você quer um filme de super herói "mais maduro", continue com a trilogia do Nolan e fique longe desta abominação. Como Zack Snyder continua pegando projetos assim está além da minha compreensão.


E aí está: uma crítica de BvS (quase) sem menção ao horroroso Apocalipse, àquela bobagem de "minha mãe também é Martha!", a cena do futuro alternativo que vem do nada e "Batman que é Batman, não mata".

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